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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Folhas varrem os pés descalços dos amerindios.

Desde até aquele instante, eles já tinham vivido muito, não podiam se olhar agora, apenas cartas, ambos estavam encarcerados. Quando ela aceitou casar com ele, eles já eram de avançada idade, nunca se viram, apenas ouviram falar um do outro, eram do mesmo partido.

Ela a dirigente internacional, responsavel por orienta-lo. Ele apenas o simbolo de uma rebelião, que possivelmente desencadeiaria em luta de classes. Cumpririam prisão perpetua, até o final da vida estariam murados.

No proximo outono se casariam, ele fez o pedido por carta, ela respondeu por uma ligação clandestina. Nos jornais será anunciado:
Dupla de perigosos comunistas maoistas, anunciam matrimonio!
Se encontrariam só aquela vez, depois nunca mais se veriam novamente, casariam-se numa cerimonia do partido. Sediada em um presidio, observado por guardas, imprensa e a massa carceraria em suas respectivas celas.

Ele com seu terno chines preto e uma estrela no peito, feito medalhe ou simbolo de sorte. Ela modesta, como são modestas as noivas camponesas, vestido simples, parecia apenas que estava feliz.
Eles esperavam por isso desde quando tomaram consciencia um do outro.

As folhas da amendoeira caiam aos pés descalços daquele que seria o suposto grande lider, de um perigo vermelho e coletivizante. No fundo ele era apenas indio, apenas latino-americano, tão somente um entusiasta da guerra popular.

Teceu para ela uma pulseira cerimonial, vermelha. Para si apenas um cordão verde oliva, como o forro do seu terno cinza de inverno.  A cermonia de troca, constituiria-se a um por do sol gasto e cansado, apos uma tarde com ventos frios que retalhavam o rosto ao levar as folhas, seguido de um terno abraço e um beijo timido como são os primeiros beijos.

Após a troca, um novamente se dividindo do outro, ele de volta ao seu presidio, ela de volta para sua cela ali mesmo, bem proximo. A noiva india do grande timoneiro abaixo dos tropicos, havia com ele tido, ele era apenas um homem diante dela. Ela era a camponesa de cabelos de sol, interior bem proximo da Metropole, ela se pareceria com o sol, muito maior que o sol, iluminada e sonora.

Eles se despediram, deu para ela rosas amarelas e cravos vermelhos. Ela sorriu timida, cobrindo com a mão o riso, aquela seria a penultima imagem que teria dela.
A ultima seria ela se despedindo em seguida. Após a prisão não haveria encontro, não acreditavam em superstição.

Do vidro da viatura, ele olhava enquanto a imagem dela seguindo em sentido contrario diminuia até não ser possivel distinguir, o que era ela e o que era apenas poeira em seus olhos.
Um cigarro na boca, na cabeça uma ideia alegre, podia ser percebida pelo melancolico brilho infantil de seus olhos ao mesmo tempo contentes e inquietos. Suponho que devia pensar consigo mesmo naquele instante:


''Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. 
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. 
O meu coração procura-a, ela não está comigo.''¹


Camarada Zé






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¹ Pablo Neruda.

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