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segunda-feira, 18 de março de 2013

Verso de chumbo, estanho, fumo e cachaça

O vento frio, como uma navalha retalhou meu rosto,
selou meus olhos a luz da manhã cinza de março.

Por um instante pensei em todas as ruas do meu lado da cidade,
no mofo e na fuligem, junto ao cheiro azedo de repolho  passado.

Pelas ruas carros, na avenida transitam mercadorias e o futuro,
faróis de milha e velocidade incessante, a cidade nos acertou.

A chuva fina e as primeiras horas da manhã,
o jornal onde eu não escrevo, o medo do qual participamos,
apenas a vida a um preço barato demais para ser cobiçada,
somos as mãos de dedos amarelos, somos a classe operaria.

Agora a fila, adiante o horário, o livro, o jornal e o itinerário,
que importa? Se diante do tempo não somos sequer quem abre a porta?

O vento frio retalhou meu rosto, na volta para casa,
no começo da rua outras casas, iguais a mina casa,
a espera de país, mães ou filhos, cansados demais para sonhar

eu olho enquanto sigo, pela janela do ônibus eu olho enquanto sigo,
não há destino capaz de transpor a dor e o desespero,

que me causa esse cheio azedo de repolho passado,
pelas janelas luzes, interrupções de telas de televisores,

onde famílias jantam em silencio e culpa, cansaço e desanimo.
Pelas ruas caros, na avenida transitam mercadorias e o futuro,
carga roubada derivada de alguma alma interrompida.

Toalhas secando no varal, cadeiras vazias em varandas simplórias,
bares vazios, calçadas vazias, na rua a chuva fina e
a luz da sala vinda do televisor.

Ninguém vai te ligar. Uma segunda-feira como outra segunda-feira,
morna, lenta e celibatária, como expurgando os pecados de toda uma classe.

Prédios habitacionais, apartamentos, mercados e igrejas,
tudo enche os olhos de cor e pavor, de dever por cumprir.

Meu corpo se desespera, outros corpos parecidos com o meu,
tão parecidos como o meu, também se desesperam, ao descansar

A vida é o intervalo da produção,
a vida nem isso pode ser, o trabalho tonou a vida uma punição.

O vento frio retalha o meu rosto,  o cheiro azedo pela rua,
a comida estragada nas lixeiras, os gatos da rua, os cães e os ratos,
me roubaram a satisfação mais inocente de observar impunemente a lua.

Enquanto isso minha barba cresce, signo operário de quem envelhece,
que contarei da minha?
 Amores?
Pecados?
Greve e poesia?

ao meu turno retornarei, ao turno definitivo,
assim como eu antes de mim, meu pai,
assim como eu, depois de mim, meu filho

A luta de classes, a disputa e a opressão,
tornam a vida como um todo,
num ensaio entusiasta do conflito.

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