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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Estranhamento

Estranho, não estou conseguindo escrever, tive um sonho feliz essa manhã, um ótimo almoço com o meu pai, meu cachorro fez festa quando me viu chegar, estou feliz, sei que ainda falta algo, mas estou feliz, comecei a ler novamente o Brecht, estou feliz, essa noite voltando para casa, mesmo em meio aos chuviscos, olhei para o céu e vi um pouco da luz da lua entre as nuvens e as gotas de chuva iluminadas pela luz amarelada dos postes da cidade, bem como a cor dourada que a iluminação publica empresta para as poças de água nos buracos das calçadas, tudo isso me deixou feliz, contente feito criança antes do Chanukkah, mas sabe anda faltando algo, é tanta alegria, vontade de abraçar alguém, vontade de dar a mão, de passear qualquer dia no final de uma tarde, estou feliz, mas tem algo ausente e essa ausência me incomoda, não me deixa escrever.        Pois sou amor e tenho amor, mas reside em mim aquela sede absurda por aquela gota d'agua que transborde o meu copo. Quando olho uma criança, logo me alegro, faço cena, invento qualquer graça.
Posso ter comigo essa alegria, essa euforia que parece não se gastar aos olhos dos outros, sou feliz e tenho me esforçado em tornar o próximo feliz, pelo menos rir. Mas sempre vem essa sede, essa vontade de me dividir, de compartilhar, partilhar, aprender e sentir novamente a humanidade em mim, dentro do meu cotidiano.
Não se pode ser feliz sozinho, por trás do herói existe sempre o complexo e o medo da solidão, por trás da liberdade, existe a angustia, existe a angustia pois ser livre é viver a liberdade, estar só é apenas se anestesiar, não é possível ser feliz sozinho, quem ri sozinho, não ri, se desespera. Por isso quando ando por ai, quando volto para casa, quando deito na minha cama, quando leio meu jornal todas as manhãs no metrô, enquanto tomo o meu chá, são objetos, são só coisas e tudo ao redor delas, extensão daquilo que sou ou projeto nelas. Tenho medo,não sou medroso, mas tenho medo, insisto em encorajar os outros, mas tenho medo, não sou o medo, mas tenho comigo algum medo, as vezes frágeis detalhes, as vezes apenas manias infantis, inseguranças próprias da vida na cidade. 
Estou feliz, tenho olhado as coisas, tenho visto as pessoas, com mais compaixão, com mais afeto e esperança, me nutrido de fé, me reinventado com paixão, meu jardim, meu fogão, minhas margaridas, meus amigos, meu cachorro, minha gata, meus discos, estou feliz, tenho paz, mas algo me inquieta ainda.
Não vai adiantar muito escrever peças, poesias, propor parcerias com músicos, recitar em festivais, não vai adiantar, não tem choro e nem vela, alias tem choro de sobra pra vela de menos. Viver é uma ciranda, dar as mãos, cantar mesmo que cada um, cada um cante uma canção, no final o que importa é dar as mãos. Por melhor que seja o uísque, o cigarro ou o filme, lá fora existe vida, e é a vida que tudo inspira ou deveria em tese inspirar, fazer reparar nas pernas da moça, se faz sol ou chove, que horas são, esquecer nomes de ruas, sentir náusea no centro depois do ultimo trem, querer o ultimo bar, cantar com quem canta na rua, abraçar uma criança ou simplesmente fazer graça para faze-la sorrir, lá fora é a vida. Lá fora algo me angustia, pois estou feliz, sim estou feliz, mas não estou contente por completo, não sou livre por completo, como se no meu sorriso faltasse um dente, como se durante a semana o tempo prolongasse o por do sol só de pirraça, como dizendo que eu devia ir lá fora, ligar para alguém, procurar bar sem fila no balcão, ficar amigo do novo garçom. 
Talvez minha alegria seja culpa, talvez o meu pecado ainda não exista, quem sabe se inventei o meu próprio crime, o certo é que todas as respostas merecem ser respondidas por uma voz diferente daquela que as fez, feito o sol distribuído nas diversas horas do dia, feito a chuva que molha tudo quanto é qualidade de gente, banhando assim a cidade, nivelando assim a todos, nessa metáfora climática sobre esses tempos modernos. Talvez minha angustia seja culpa, seja medo, talvez essa alegria seja carnaval, talvez essa angustia seja aquela sensação de que é inevitável, para toda euforia, sempre haverá quarta de cinzas, mais dia, menos dia, mas estou feliz, não importa isso agora, importa chamar alguém pra sair, importa pouco se levar bolo, pegar ônibus errado, tomar sorvete, chegar atrasado, importa mais o que mais importa, é que lá fora é a vida, essa casa gigante repleta de janelas e sem nenhuma porta.

Um comentário:

ivete.pellegrino disse...

Caro Igor eu acho que o estranhamento é de um homem que ama, ama ternamente, porisso se angustia e sofre.Você conseguiu entrar pelos labirintos da alma e olhar pela janela e ver a rua da realidade nesse texto. Good luck!Prof Ivete