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terça-feira, 15 de maio de 2007

Uma igreja sem Cristo

Uma igreja sem Cristo
O Cardeal Ratzinger, bispo de Roma e chefe universal da Igreja Católica, acaba de fazer uma visita pastoral ao Brasil. Sua Santidade não veio em nome daquele Cristo, que acolhia em sua grei os pecadores

Na planície umbra, diante do belo monte de Assis, a igreja majestosa serve de casulo a uma capelinha medieval, severa, pobre, feita para duas dúzias de fiéis, se tanto. As paredes do templo novo parecem ter sido erguidas a propósito para isolar a capelinha do mundo, escondê-la, segurá-la, e não para protegê-la. Entre tantas catedrais góticas, que já existiam, e as que seriam erguidas nos séculos sucessivos, a capelinha - levantada na superfície plana, e que seria quase invisível entre a vegetação da planície para quem dela estivesse distante alguns quilômetros -, é o símbolo da igreja dos pobres. Reergueu-a, sobre suas ruínas, um rapaz nascido rico, que deve ter ouvido, em sua alma, o apelo de homem tão jovem quanto ele, que andara pelo mundo doze séculos antes. O apelo era singelo: quem O quisesse seguir, que abandonasse tudo o que tivesse. Assim fez Francesco Bernardone. Jogou as vestes fora, meteu-se, desnudo, pelos matos. Juntou-se depois à jovem Clara e, com alguns amigos, levantou sua comunidade cristã. Em 1979, o papa Wojtyla o fez patrono da ecologia. Estava enganado. Francisco, de Assis, é o patrono dos pobres. O fato de amar todos os seres, e de considerar a Lua como irmã, ampliava sua fé, ao ver o mundo como um lugar que deveria ser justo para todos os seres criados por Deus, e via Deus em todas as coisas, entre elas, os bichos e as estrelas. Mas via, acima de todas essas coisas, o homem e a mulher.Em Roma, no monte Vaticano, ergue-se o imenso palácio, o mais rico de todos os palácios do mundo, com a Capela Sixtina e a Basílica de São Pedro no centro do grande conjunto de edifícios imponentes. Em contraponto à igrejinha da Úmbria, a Santa Sé parece, a quem guarde a verdadeira fé, um lugar estranho a Cristo. Provavelmente, se Ele surgisse à porta da Basílica, com sua face real, a Guarda Suíça não lhe permitiria a entrada – como não tem permitido a entrada de outros, com a mesma face tisnada pelo sol da Palestina, os olhos negros e cabelos escuros e ondulados.Quando reergueram a capela, alguns de seus discípulos disseram a Francisco que deviam construir ali edifícios maiores e mais sólidos, e o jovem disse que não, que isso atrairia as autoridades e os assaltantes. Só no testemunho da pobreza estava a sua liberdade em exercer a fé e, assim, reivindicar a justiça.Dois anos depois de sua morte, o Vaticano o declarou santo, seus discípulos foram seduzidos pelas pompas do mundo e levantaram imponente Catedral, em Assis, devotada a seu nome. O Cardeal Ratzinger, bispo de Roma, e, como tal, chefe universal da Igreja Católica, acaba de fazer uma visita pastoral ao Brasil. Sua Santidade não veio em nome daquele Cristo, que acolhia em sua grei os pecadores e que, ao dividir os pães e os peixes, os multiplicava. Não veio, tampouco, em nome de Francisco, de Assis, e de sua companheira Clara. Veio em nome do império mundial, como sucessor das obrigações assumidas com Washington pelo seu antecessor, João Paulo II, do qual foi o mais próximo e mais influente conselheiro.Seu discurso quis ser ambíguo, mas a sintaxe filosófica era clara. Ao condenar o marxismo, como responsável pelo desastre ecológico, Sua Santidade absolveu Bush, que se nega a assinar o protocolo de Quioto. E se esquece de que foi exatamente contra o caráter excludente do capitalismo - que, desde sua origem, tem produzido a miséria da maioria, em benefício de um número cada vez menor de privilegiados - que o marxismo surgiu no mundo. O papa quer que os cristãos se esqueçam de que se encontram prisioneiros de uma realidade secular, e que só se dediquem às coisas do espírito. Isso é contrariar a presença de Cristo no mundo, em seu tempo e nos tempos que se seguiram.O papa que veio ao Brasil é o mesmo papa Wojtyla, que dedicou todos os seus esforços para desfazer o que se decidira no Segundo Concílio do Vaticano, sob a lúcida liderança de Ângelo Roncalli. Roncalli, com Mater et Magistra e Pacem in Terris, pregava a inclusão de todos os homens de boa vontade, Bento XVI condena governos latino-americanos que usam os recursos nacionais para promover o bem-estar de seus povos, como ficou bem evidente em sua alusão indireta ao da Venezuela. O Papa voltou a esquecer-se de Bush, e do povo americano que se orgulhava de sua democracia, invejada no mundo, e hoje se submete a uma elite responsável pelo aumento da pobreza em seu país e pela morte inglória dos jovens no Iraque. O papa não disse, no Brasil, uma só palavra em favor da paz no Oriente Médio, nem contra a destruição do Iraque.0 É difícil saber, por enquanto, se o Cardeal Ratzinger está seguindo o que pensava seu antecessor, ou se seu antecessor seguia, durante seu tempo, o que lhe ditava o atual pontífice. É mais provável que o Cardeal polonês tenha formado sua teologia a partir do colega alemão, e que tenha, durante seu período, apenas preparado o caminho para o papado mais conservador de seu conselheiro. O fato é que a Igreja, com papas como Pio XII, João Paulo II e Bento XVI (ficaria melhor Benedito, em português) está cada vez mais distante da igreja que os discípulos de Cristo ergueram, a Igreja do Caminho, de que nos dão notícias os Atos dos Apóstolos, e da capelinha que São Francisco reformou, em Porciúncula. Em ambas, os pobres eram acolhidos como irmãos.O papa disse que os católicos devem entender Deus como a única realidade. Talvez fosse melhor entender Cristo e seu povo, constituído de pecadores, enfermos, coxos, pescadores, rameiras, como a realidade que nos toca viver. Os ricos, enfim, como nos mostram as realidades deste mundo, não precisam de Deus. Para os pobres, a fome de Deus é a fome de justiça, que começa a ser exercida no direito ao “pão nosso de cada dia”.

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